Tutto Ponti: Gio Ponti Archi-designer

 

Tutto Ponti: Gio Ponti Archi-designer

Exposição no Museu de Artes Decorativas, Paris
até 05 maio 2019

Por Angelica Ponzio, PROPAR/UFRGS

Em outubro de 2018 o Museu de Artes Decorativas de Paris inaugurou a primeira exposição retrospectiva na França de um dos mais prolíficos arquitetos e designers do século XX – o italiano Gio Ponti (1891-1979). Ocupando duas alas laterais mais a nave central do museu – em sua magnifica sede na ala Oeste do Palais du Louvre, a mostra percorre todos os aspectos do projetar Pontiano, fazendo jus a máxima propagandeada por Ernesto Nathan Rogers na década de 1950: ‘da colher à cidade.’ Com trabalhos permeando preceitos ora racionalistas, ora clássicos e/ou vernáculos, Ponti é figura polêmica e muitas vezes contraditória – seu trabalho permaneceu excluído ou pouco referenciado da maioria dos relatos significativos da arquitetura moderna no século XX, sendo retomado mais atentamente a partir da década de 1980. Ponti de fato interpreta a seu modo a modernidade ao defender uma perspectiva mais pragmática e menos esquemática da realidade do que muitos de seus contemporâneos. Em seu universo, a ‘fantasia’ é elemento fundamental e catalisador, comparecendo em todas as escalas de seu projetar. Nada mais atual e merecedor retomar a obra do mestre nos dias de hoje.

Abrangendo as muitas escalas nos campos da arquitetura, design e artes aplicadas, Ponti é protagonista no surgimento do design Italiano; fundador e editor da revista Domus e Stile, professor do Politécnico de Milão, envolveu-se também diretamente em exposições como a Trienal de Milão. Os visitantes são inicialmente apresentados ao universo de Ponti através de uma reprodução da fachada da catedral de Taranto – no alto da escadaria de acesso um plano perfurado de tripla altura insinua o que está por vir. Mais de 400 peças – muitas inéditas ao público e pertencentes a coleções privadas, estão organizadas em três sessões distintas. Na nave central, um percurso cronológico leva o visitante a percorrer das décadas de 1920 a 1970 a evolução do trabalho do arquiteto/designer. Ancorado nos projetos arquitetônicos marcantes de cada período e aproveitando o pé direto, esta seção inclui cenários dispostos em pedestais com mobiliário, objetos decorativos, pôsteres, projeções de fotografias e luminárias suspensas. Nesta secção encontram-se ainda desenhos e maquetes originais pertencentes aos arquivos do CSAC da Universidade de Parma, combinadas a fotografias do arquivo Ponti. Ao longo de uma das paredes laterais, reproduções das capas da revista Domus remontam parte de sua produção editorial. Esta ala ainda inclui a projeção de filmagens de entrevistas históricas com a família e o próprio arquiteto. Já a ala vizinha ao jardim das Tulherias abarca a obra de Ponti designer: objetos decorativos, cerâmicas, louças e talheres, maçanetas, tecidos e vestimentas para teatro, além de suas famosas cartas se apresentam em um percurso todo revestido de preto entremeado por vitrines iluminadas e pensamentos do mestre. Na ala faceando a Rue de Rivoli uma visão do projetar integral de Ponti é apresentada: seis ambientes de cada um dos projetos mais representativos de cada década estão dispostos como cenários prontos a serem habitados. Iniciando pelo estar da casa L’ange Volant, passando pela sede do edifício da Montecatini – projetado a partir de um modulo de escrivania; os visitantes são ainda conduzidos aos interiores do Palazzo Bo na Universidade de Padova, aos azuis do Hotel Parco dei Principi em Sorrento– que até hoje recebe hóspedes, e ao apartamento da família Ponti na Via Dezza em Milão, com sua característica ‘janela mobiliada’. Por fim, o percurso termina na magnifica casa-museu Villa Planchart, com mobiliário e louça original trazidos especialmente pela Fundação Planchart em Caracas.

Por ocasião da inauguração realizou-se ainda, no dia anterior à abertura, uma recepção na casa que foi o primeiro projeto de Ponti no exterior – L’Ange Volant em Garches, nos arredores de Paris. De inspiração neoclássica e conservada cuidadosamente por seus proprietários, esta reúne alguns dos princípios de Ponti destinados à reformulação da filosofia do “habitar moderno,” representado na forte referência à vida e cultura italianas através do grande espaço central de dupla altura para a reunião familiar.

 

Ponti e o Brasil

No Brasil, Ponti é frequentemente referenciado através de sua ligação com Lina Bo Bardi, sua colaboradora em Milão antes de vir para o país em 1946, com seu esposo, Pietro Maria Bardi – velho amigo do mestre. Recentemente, um pequeno recorte da produção de Ponti foi apresentado na exposição internacional itinerante ‘Vivere alla Ponti.’ Promovida pela indústria de moveis italiana Molteni, a mostra foi apresentada em São Paulo no Museu da Casa Brasileira em parceria com o Instituto italiano de Cultura em 2018. No entanto, ainda é pouco divulgada a presença do arquiteto em terras brasileiras. Convidado a ministrar a disciplina de Composição decorativa, na então recente faculdade de Arquitetura da USP em 1952, Ponti visitou o Brasil por duas vezes naquele ano, terminando por desenvolver em 1953, três projetos não realizados, todos em São Paulo: uma casa para o Dr. Taglianetti, o projeto inicial para o Instituto de Física Nuclear da USP e ainda sua participação na concorrência do Prédio Itália. Segundo o próprio arquiteto, estes projetos foram fundamentais no desenvolvimento de alguns de seus princípios compositivos. Este e outros relatos estão presentes no livro/catálogo comemorativo da exposição. Com o titulo de Gio Ponti, Archi-designer, a publicação de 320 páginas, com edições em francês e inglês, conta com participações de cerca de 30 autores estrangeiros, incluindo o episódio brasileiro.

Informações
Inauguração: 19 de Outubro 2018; sucesso de público, a exposição teve seu prazo estendido para o dia 05 de maio de 2019.

Musée des Arts Décoratifs
107-111, Rue de Rivoli ; Paris, Ile de France 75001 França
Phone: +33 (0)1 44 55 57 50
Horários: Terças a Domingos de 11 a.m. a 6 p.m; Aberto até as 9 p.m. nas quintas.

Exposição
Olivier Gabet, Diretor do Museu de Artes Decorativas, Paris
Curadores: Sophie Bouilhet-Dumas, Salvatore Licitra, Dominique Forest
Assistente de curadoria: Chiara Spangaro
Cenografia: Wilmotte & Associès
Design Grafico: Italo Lupi, BETC

Livro
Editores: Sophie Bouilhet-Dumas, Dominique Forest, Salvatore Licitra
Edição Francesa: MAD, Paris, 2018; ISBN 978-2-916914-75-6
Edição Inglesa: Silvana Editoriale, Cinisello Balsamo, 2018; ISBN 978-88-366-4125-3

Profa. Dra. Angelica Ponzio
Profa. Adjunta da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, pesquisadora e colaboradora do PROPAR/UFRGS, possui Tese de Doutoramento defendida em 2013 no PROPAR com período sanduiche no Politecnico de Milão, versando sobre a arquitetura e interiores de Gio Ponti. Autora convidada a participar na publicação/catalogo comemorativo da exposição, a Profa. Angelica contribuiu com o capitulo: Gio Ponti au Brèsil / Ponti in Brazil.

Imagens: capa catalogo, versão francesa, foto: MAD, Paris / cartaz da exposição: Graphic design: BETC and Italo Lupi; Photo credits: © Gio Ponti Archives; Editoriale Domus S.p.A., all rights reserved; Paris, MAD, photo Jean Tholance; Francesco Radino; Courtesy Wright Auctions; Associazione Amici di Doccia / Arrigo Coppitz; Vincent Thibert

Fonte das imagens: Gio Ponti exhibition’s press kit published by the Musée des Arts Décoratifs, Paris.

 

Jornada pela preservação da obra de Lelé

Jornada pela preservação da obra de Lelé

Oito instituições brasileiras da área de arquitetura assinam documento (abaixo reproduzido) pela preservação da obra de João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, um dos mais importantes arquitetos do século XX, que encontra-se em risco de descaracterização e desaparecimento. IAB, FNA, FAUFBA, Escola da Cidade/SP, ICOMOS Brasil, DOCOMOMO Brasil, ANPARQ irão, entre outras medidas, solicitar ao IPHAN que intensifique a guarda dos elementos mais representativos da obra de Lelé, que participou de momentos históricos da arquitetura brasileira, como a criação e construção de Brasília. O documento foi assinado durante o V ENANPARQ, realizado em Salvador em outubro.

Seu trabalho, de forte identidade, teve grande impacto social graças a sua inovadora pesquisa e atuação com pré-fabricados, que ajudou a consolidar políticas de urbanização de favela e bairros populares no Brasil e a criar o conceito de cidade inclusiva. Lelé morreu em 2014, em Salvador, onde estão parte de seus projetos, como a Prefeitura Municipal, no Centro Histórico.

Assinam o documento: Adriana Filgueiras Lima (presidente do Instituto Lelé), Anália Amorim (Escola da Cidade), Carlos Eduardo Dias Comas (ANPARQ), Eleonora Mascia (FNA), Esequias Souza de Freitas (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia), Fábio Mosaner (UFSC), Leonardo Barci Castriota (ICOMOS Brasil), José Fernando Minho (UFBA), Juliano Vasconcellos (UFRGS), Naia Alban (UFBA), Nivaldo Andrade (IAB/DN), Renato Gama-Rosa Costa (DOCOMOMO Brasil), Sérgio Ekerman (UFBA)

Segue o documento elaborado durante o V ENANPARQ, em Salvador.